Faz hoje, dia 23 de Março, oito dias que me encontro em casa.
Isto significa não ir todos os dias ao escritório como fazia antes de surgir
todo este problema da pandemia. Evito sair à rua. Saio o menos possível e
sempre com um objectivo claro sem alternativa. Exemplos? Comprar comida. Aliás,
não tenho de momento motivações para adquirir alguma coisa que não seja comida
para nos mantermos em casa a salvo, partindo do princípio que é possível, do
vírus e da pandemia.
Não posso dizer que estou aborrecido ou entediado por estar
tantos dias em casa. Eu gosto de estar em casa e encontro sempre motivos para
ocupar o tempo. Pode ser uma trivialidade qualquer como ver televisão. Mas é, pelo
menos até agora, normal e fácil encontrar o que fazer.
O que sinto falta? Das coisas normais do dia a dia. Muita
falta? Não, apenas falta. Tenho o hábito de me adaptar às circunstâncias, mesmo
que sinta o desassossego normal de procurar o que não tenho. Talvez ainda seja
cedo para sentir realmente falta de alguma coisa em concreto. O resto tenho. A
família que não está presente todos os dias na minha vida, vejo-a e ou ouço-a à
distância. Não é a mesma coisa. A situação que vivemos também não é a mesma que
tivemos até hoje.
Da janela que é a minha televisão e o meu computador vou
recebendo as notícias que chegam do país e do mundo. Preocupantes? Sim,
bastante. Está a morrer gente que supostamente não devia morrer já, não fosse o
vírus importado da China. Sim, para mim o vírus é chinês. Não vejo qual é o
problema de o reconhecer. Não sei o suficiente para distinguir como surgiu e se
isso foi um processo acidental ou talvez não, mas a fonte, a origem é conhecida.
O que me resta? Não sei. Ninguém sabe. Sinto-me bem. Os meus
estão bem. Estou em casa e tenho a possibilidade de me manter activo no meu
trabalho o qual foi bafejado pelos benefícios da tecnologia e me permite
continuar a laborar como se nada se passasse. Pelo menos para já.
Hoje foi mais um dia. Amanhã vem outro. Apenas isso, para
já. Um dia de cada vez.
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